09/11/09

Direito ao trabalho e ao tempo livre

Por Cézar Bueno - Em tempos de globalização econômica, revolução informacional e liberdade reduzida ao consumo, a contradição entre quantidade admissível de trabalho e tempo livre tende aumentar. O avento de inovações tecnológicas e a utilização de métodos organizacionais mais produtivos que, em tese, deveriam poupar o tempo dedicado ao trabalho e, portanto, ampliar o tempo livre para que as pessoas pudessem fazer algo mais prazeroso continuam, na prática, exigindo que homens e mulheres encontrem mais tempo para realizar um número ampliado de tarefas. O avanço da tecnologia, que substitui o trabalho vivo pelo trabalho robotizado, é inegável, porém, as pessoas andam reclamando que não têm mais tempo pra nada. Nunca se termina nada, tudo está por fazer. O excesso de trabalho está por toda parte: na empresa, no comércio, no escritório, na escola, nos afazeres domésticos, etc.
A sociedade, com o seu modelo atual de produção, competição e consumo, seqüestrou o tempo dedicado ao não trabalho. Com exceção da rotina do Shopping, destinada a tranqüilizar o apetite compulsivo de alguns ávidos consumidores, as pessoas sentem-se cada vez mais distantes da posse do tempo para ficar à-toa, fazer visitas aos parentes, aos amigos, conversar com vizinho da rua e tecer novas amizades.
A ausência endêmica de tempo livre para os adultos repercute no modo de vida das crianças. Em nome da boa formação educacional e do suposto êxito profissional, os pais são levados a sacrificar o tempo livre das crianças, forçando-as a desempenhar múltiplas tarefas ao mesmo tempo: freqüentar a escola normal para sua idade, fazer o reforço escolar, aprender o inglês, freqüentar escola de música, de natação, etc. Com isso, a sociedade tende a seqüestrar o tempo livre da infância, na esperança que os filhos vençam e sejam alguém no futuro.
Quando o futuro chega, proliferam-se a dúvida e a insegurança. Em nome da produção sem freios, da irracionalidade do consumo e do lucro sem escrúpulo, os ideólogos da teoria da redução de custos são pagos para convencer e propagar idéias absurdas: se você faz parte da população formalmente empregada precisa ficar atento e dedicar seu tempo e sua vida em função do trabalho; se você, ao contrário, fracassou e faz parte da multidão de jovens e adultos sem emprego, saiba que é por conta de uma boa causa científica: avanço tecnológico, revolução informacional e necessidade de reestruturação produtiva. Os fundamentalistas do produtivismo, do trabalho sem trégua e do lucro imoral não sabem dizer outra coisa.
O trabalho, como um meio de conferir identidade e realizar a liberdade, nunca foi e nem poderá ser encarado como um fim em si mesmo. Ao lado do trabalho braçal e mental, destinado a alimentar e reproduzir a existência humana, as pessoas precisam de lazer, arte e cultura, de alimentar o corpo, os ouvidos e as coisas sensíveis da alma. A realização de tudo isso significa reivindicar o direito fundamental ao não trabalho

Cézar Bueno é Doutor em Ciências Sociais e leciona da PUC Londrina e Unifil.

1 comentários:

Anônimo disse...

PÔXA VIDA TEM ALGUNS VEREADORES NA CAMARA QUE DEVERIAM LER ESTE ARTIGO,POIS ACHAM QUE ASSESSORES SÃO ESCRAVOS,PQ TRABALHAM DE 2ª A 2ª.