Terça-feira, Maio 3

Até logo

O Café foi bom enquanto durou. Mas esfriou.
Falar de (ou sobre) política não me motiva mais. Tem gente muito mais gabaritada e que faz isso com maestria. Percebi que não nasci para a atividade política. Na verdade, insisti no erro. Tive meus primeiros contatos na política ainda no movimento estudantil. Foi uma paixão a primeira vista. Me iludi, como em qualquer outra paixão humana. Mas me salvei a tempo, antes mesmo de completar 30 anos e de me "orgulhar" em ainda fazer parte do movimento estudantil secundarista, como ainda tenho alguns amigos que se orgulham dessa proeza. Decidi ir para outro lado. Entrei na Universidade Estadual de Londrina aos 22 anos, quando a maioria dos jovens já estão saindo dela. Mas eu não pertencia a maioria dos jovens. Pelo menos daqueles que estudavam naquela instituição. Oriundo de escola pública, morei na periferia até os 25 anos, tomando dois ônibus para estudar e mais dois para trabalhar. Sim, trabalhei durante a maioria do tempo em que cursei Ciências Sociais naquele campus.
Meu reencontro com a política se deu quando eu frequentava as aulas de especialização no ensino de sociologia, curso que não terminei por mera preguiça, mas falemos desse assunto outra hora. Voltei a frequentar as reuniões do PDT, único partido no qual pertenci. Mais por ideologia que por qualquer outra coisa. Eu me achava uma pessoa ideológica. As pessoas diziam isso. Mal sabia eu o carcinoma que é a ideologia. De esquerda e de direita. Da direita eu nem me permito comentar, talvez ainda pelo ranço que a ideologia impregnou em mim durante mais de 10 anos. Da esquerda, surgem idéias estapafúrdias como centralismo democrático, uma falácia para se justificar uma ditadura de esquerda. Ora ditadura de direita é crime. De esquerda é centralismo democrático. Mas enfim....são tantos exemplos... mas também falemos sobre isso em momento oportuno.
Cometi os maiores erros da vida investindo meu tempo ocioso em política. Antes o tivesse destinado aos estudos. Comecei a me destacar no coletivo do partido. Destaque duvidoso entre políticos demagogos, lideranças, militontos e cabos eleitorais pagos para empunhar bandeiras em comícios. Me orgulhava em ser um militonto. Sim, os militontos são aqueles indivíduos apaixonados por ideologia, geralmente ligadas à esquerda, e quanto mais alinhado à esquerda, mais radical. Adora um pão com mortadela em congressos, feiras e afins e desce a lenha em que anda de avião, mas no fundo não vê a hora de subir numa aeronave e ver o mundo "de cima". Ainda bem que eu descobri isso antes da minha ideologia me cegar a este ponto. Assim também são os sonhos do militonto. Desce o pau no capitalismo, mas não vive sem o cartão magnético que lhe oferece crédito. Aliás esses eram os militontos de antigamente. Depois que o PT aportou no Planalto, os militontos deixaram gradativamente de comer o honroso pão com mortadela Marba e passaram a frequentar as fileiras dos cargos comissionados nos três níveis.
Demorei. Mas me libertei após dois processos eleitorais (uma condenação) e uma série de tentativas de escancaramento da minha vida, recurso comumente usado no mundo político para prejuducar os chamados "adversários". Demorei também para entender que o meu lugar não é na política, pelo menos por motivação ideológica. Porém, enquanto não entendi e amadureci esse processo, levei várias pancadas na cabeça por conta disso. De aproveitadores a semi analfabetos, pagos pelo dinheiro público para bater palmas em secretarias especiais criadas para esse fim e de manipuladores mequetrefes a lobistas. Apanhei de todos. Mas parafraseando o mestre Darcy Ribeiro (in memorian), digo que os meus fracassos são minhas vitórias. Prefiro ter apanhado de todos do que estar do outro lado, distribuindo pancadas sem a menor ética, com o objetivo único de se segurar num empreguinho (geralmente com salários polpudos) mantido por atos de nomeação política, pois não se exerce daquele lado a capacidade de estudar para passar em concurso público.
E como nada na vida é por acaso, demorei, mas me libertei da ideologia. Sem mágoas, ressentimentos ou coisa semelhante. Isso é para os fracos. Da minha parte, resolvi saber mais sobre o progresso e sobre a liberdade que o ser humano pode alcançar, de forma fraterna, e em condições de igualdade, bastando apenas o "querer" para tanto. Vi que a ideologia é uma das maiores paixões humanas, ao lado do fundamentalismo religioso, da sensualidade e do egoísmo, este último um dos maiores males que aflige a humanidade. Voltei a estudar, a lecionar e a sorrir, sem pensar em qual seria a próxima pessoa na qual eu precisaria me defender. Aquele que se defende de todos acaba por ser entendido como aquele que não tem credibilidade no que fala ou age. Ora, isso não é pra mim. Tenho toda a legitimidade do mundo ao defender aquilo que acho correto. Só não defendia da forma correta. Não era preciso eu ter agido daquela forma, mas a paixão de anos chamada ideologia me cegou a tal ponto.
Hoje estou liberto. Não, não virei evangélico para enfiar uma bíblia embaixo do braço e me fazer de santo como tantos fazem. Apenas entendi mais algumas coisas sobre a vida. E com elas, a certeza de que este Café esfriou. Perdeu-se o seu objetivo primeiro. Falar sobre política. Reitero que a atividade política é digna das melhores cabeças, quando acompanhadas de boa vontade. Porém a forma torpe como é tratada, aliada a cegueira que a ideologia me causou durante anos, faz com que este espaço não tenha mais finalidade/utilidade.
O Café com Pizza é um patrimônio que combina comigo. Aqui criador e criatura muitas vezes se confundiram. Porém é chegada a hora de se despedir. Pelo menos neste formato.
Quem sabe um dia arrumo outra inspiração para dividir por aqui. Até lá, o Café frio entra em stand by enquanto a política continua fabricando suas toneladas de pizza diariamente no Brasil.

Muito obrigado a todos que passaram por aqui.
Até um dia.

Renato.